‘Pênis de Ozempic’: o uso de canetas emagrecedoras faz o órgão aumentar?

Foto: Freepik
Man preparing insulin diabetic syringe for injection - people diabetic health care concept

Em comunidades online como o Reddit, multiplicam-se relatos de homens que dizem ter notado algo inusitado após emagrecer com o uso das chamadas “canetas”: a impressão de que o pênis teria aumentado de tamanho. A recorrência do comentário rendeu até um apelido popular — “pênis de Ozempic”. Mas há respaldo médico para isso ou trata-se apenas de uma ilusão provocada pela perda de peso? Para esclarecer, a reportagem ouviu especialistas em urologia.

Crescimento real ou efeito visual?

De acordo com o urologista Leonardo Seligra, do Departamento de Andrologia, Reprodução e Medicina Sexual da Sociedade Brasileira de Urologia, não há qualquer evidência de aumento real do órgão.

“O que ocorre, na maioria dos casos, é o chamado efeito de ‘desembutir o pênis’, decorrente da redução da gordura na região suprapúbica. O pênis não cresce, apenas fica mais aparente”, explica.

Ele lembra que a literatura médica utiliza o termo buried penis (pênis oculto) para descrever situações em que o órgão tem tamanho normal, mas parte dele permanece encoberta pelo excesso de tecido adiposo no púbis.

“Com o emagrecimento, essa gordura diminui e a base do pênis volta a ficar visível. Isso gera a sensação de aumento, sem alterar o comprimento real”, afirma.

Por que a gordura ‘esconde’ o pênis

A gordura suprapúbica não reduz os corpos cavernosos, mas limita a porção visível do órgão. Seligra explica que parte do pênis está ancorada internamente ao osso púbico.

“Tanto que a medida do pênis flácido esticado até o osso costuma corresponder ao comprimento em ereção. Essa porção interna é justamente a que fica ocultada pelo acúmulo de gordura”, detalha.

O urologista Mauro Nolasco, do Hospital e Clínica São Gonçalo, concorda: “Em homens com sobrepeso, essa gordura funciona como uma espécie de ‘almofada’. Quando ela diminui, o pênis parece maior, embora o tamanho real seja o mesmo”. Segundo ele, o ganho aparente pode variar de 1 a 3 centímetros de comprimento visível.

Melhora da ereção também influencia a percepção

Além do aspecto visual, os médicos destacam que a melhora da saúde geral pode impactar a qualidade da ereção, alterando a percepção de tamanho.

“As diretrizes mostram que perda de peso, atividade física e controle de doenças como diabetes e hipertensão melhoram a função erétil”, explica Seligra.

Em homens com disfunção erétil, a ereção pode passar a atingir rigidez máxima após mudanças no estilo de vida. “Um pênis que antes não ficava totalmente túrgido pode parecer maior simplesmente porque agora atinge melhor rigidez”, diz.

Nolasco acrescenta que o emagrecimento melhora a função endotelial e a produção de óxido nítrico, fundamental para a ereção. “O resultado são ereções mais firmes, duradouras e de melhor qualidade”, afirma.

GLP-1, libido e hormônios: há ligação direta?

Sobre possíveis efeitos diretos das canetas emagrecedoras na libido, Seligra ressalta que as evidências ainda são limitadas.

“Há hipóteses de ação central no cérebro, já que receptores de GLP-1 se relacionam com áreas de recompensa e motivação, mas os estudos em humanos ainda são inconclusivos”, diz.

Por outro lado, a perda de peso pode melhorar autoestima e imagem corporal, refletindo positivamente na vida sexual. Além disso, a obesidade pode estar associada à testosterona baixa. “Ao emagrecer, alguns homens apresentam melhora desse quadro, o que pode favorecer a libido e a função sexual, especialmente se houver atividade física para preservar a massa magra”, explica.

Fertilidade masculina: existe risco?

Até agora, não há evidências de prejuízo à fertilidade masculina.

“Não existem estudos que associem diretamente Ozempic ou Mounjaro à piora da produção de espermatozoides”, afirma Seligra. Segundo ele, a melhora metabólica e hormonal decorrente do emagrecimento pode, inclusive, ter efeito positivo quando acompanhada de hábitos saudáveis.

Nolasco concorda: “A melhora do peso, da resistência à insulina e do perfil hormonal tende a beneficiar a produção espermática”.

Expectativas realistas e cuidado com o uso indiscriminado

Para os especialistas, o principal alerta é contra expectativas irreais e o uso das medicações sem indicação médica.

“Quando há algum ‘ganho’, quase sempre é de aparência e função, não de crescimento real”, diz Seligra. “Usar a medicação apenas para testar se o pênis aumenta é uma aposta ruim, com alto risco de frustração e efeito rebote”.

Ele lembra que os medicamentos podem causar efeitos colaterais como náuseas, refluxo, vômitos, alterações intestinais e, mais raramente, problemas pancreáticos, renais ou da vesícula.

“O chamado ‘pênis de Ozempic’ nada mais é do que um efeito visual ligado ao emagrecimento e à melhora da saúde. Antes de iniciar qualquer tratamento, é fundamental alinhar expectativas e avaliar riscos e benefícios com um médico”, conclui Nolasco.

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