O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), atribuiu o baixo desempenho do estado nos índices de alfabetização infantil a três dos principais municípios baianos: Salvador, Feira de Santana e Vitória da Conquista. A declaração foi feita nesta segunda-feira (14), durante um evento na sede da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), em Salvador.
“Olhem lá o comportamento da educação fundamental em Salvador, em Conquista e Feira de Santana, que são os municípios que puxam para baixo pela quantidade de estudantes que têm”, afirmou o governador.
Os três municípios citados são administrados por prefeitos do União Brasil, partido de oposição ao governo estadual. Salvador é governada por Bruno Reis; Conquista, por Sheila Lemos; e Feira de Santana, por José Ronaldo. Apesar da crítica direcionada, os dados mostram que o problema da alfabetização na Bahia vai além de qualquer rivalidade política e atinge municípios de todas as regiões, tamanhos e partidos.
De acordo com o Indicador Criança Alfabetizada, divulgado pelo Ministério da Educação na última semana, apenas 36% das crianças baianas do 2º ano do ensino fundamental atingiram o nível considerado adequado de alfabetização até os 7 anos de idade. O estado teve o pior desempenho do país e ficou bem abaixo da meta nacional de 60% para 2024.
A tentativa de responsabilizar os grandes centros esbarra nos próprios números. Vitória da Conquista, por exemplo, teve desempenho acima de 291 dos 398 municípios baianos avaliados e foi a segunda colocada entre as 18 maiores cidades do estado, atrás apenas de Porto Seguro, que registrou 45,5%. Já Salvador e Feira apresentaram desempenhos abaixo da média, mas dentro de um cenário geral de crise. Feira, por exemplo, evoluiu de 32% em 2023 para 33,1% em 2024.
Cidades pequenas também apresentaram resultados alarmantes. Há cidade que apenas 12,5% das crianças foram alfabetizadas na idade correta, o que demonstra que o problema é disseminado e estrutural. O próprio governador reconheceu que a alfabetização é uma responsabilidade dos municípios, mas destacou ações do governo estadual, como a construção de creches e programas de capacitação de professores.
A Bahia, no entanto, contrasta com exemplos de outros estados do Nordeste. O Ceará, com um Produto Interno Bruto menor que o baiano, atingiu 85% de alfabetização, resultado que especialistas atribuem à existência de uma política de estado para a educação básica.
Embora a alfabetização seja, de fato, responsabilidade municipal, especialistas apontam que o papel do governo estadual é fundamental para liderar o regime de colaboração, promover pactos regionais por metas e garantir suporte técnico e financeiro. Nesse aspecto, a Bahia ainda não conseguiu implementar um modelo eficaz.
A leitura crítica de gestores e educadores é de que faltam articulação, metas claras e prioridade política no topo da gestão estadual. A reação de Jerônimo Rodrigues, ao responsabilizar adversários políticos e não apresentar um plano consistente para reverter o cenário, reforça a percepção de que o estado ainda não tem um projeto sólido para enfrentar um dos seus maiores desafios: garantir que suas crianças aprendam a ler e escrever no tempo certo.
