Um levantamento do DatingAdvice.com em parceria com o Instituto Kinsey aponta um dado que chama atenção: cerca de 37% dos jovens se identificam como celibatários. Quando entra em cena o chamado celibato involuntário, o cenário fica ainda mais complexo: 22,1% dos homens e 19,3% das mulheres da Geração Z estariam nessa situação.
A questão, portanto, vai muito além de simplesmente “não estou a fim”. Ansiedade, insegurança, dificuldade para estabelecer relacionamentos, baixa autoestima e expectativas alimentadas pelas redes sociais aparecem no debate sobre o que vem sendo chamado de “recessão sexual”.
Para o sexólogo e psicanalista Januário Mourão, que atua há mais de 20 anos com temas relacionados a corpo, prazer e comportamento, existe ainda um fator importante nessa equação: a falta de educação sexual adequada.
“O Brasil não possui uma política ampla, contínua e efetiva sobre educação sexual. Temos gerações inteiras que cresceram sem orientação adequada”, afirma.
Segundo o especialista, muitas pessoas acabam construindo seu repertório sobre sexo a partir de amigos, pornografia, redes sociais, discursos religiosos ou informações incompletas. O resultado é uma geração altamente conectada, mas que nem sempre recebeu ferramentas para conversar sobre desejo, limites, consentimento e afetividade.
Entre a tela e a intimidade
A tecnologia facilitou o encontro, mas não necessariamente ensinou as pessoas a se relacionarem. Aplicativos e redes sociais permitem conhecer dezenas de pessoas em poucos minutos, enquanto a construção de intimidade continua exigindo tempo, comunicação e vulnerabilidade.
É justamente aí que podem surgir dificuldades. A comparação constante com outras pessoas, a exposição a padrões irreais de beleza e relacionamento e a pressão por experiências perfeitas podem transformar o encontro amoroso em mais uma fonte de ansiedade.
Januário também chama atenção para o peso das expectativas de gênero. Entre os homens, a cobrança por desempenho pode alimentar ansiedade e medo da vulnerabilidade. Entre as mulheres, questões como a repressão do desejo e o desconhecimento do próprio corpo ainda podem interferir na vivência da sexualidade.
“Em um mundo em que a vulnerabilidade é sinal de fraqueza, de vergonha, a dificuldade de se relacionar toma conta e afasta a ‘conexão’ entre os jovens”, explica.
Educação sexual vai muito além de falar sobre sexo
Para o especialista, uma educação sexual baseada em evidências não deveria se limitar às práticas sexuais. Ela envolve consentimento, respeito, prevenção, saúde, afetividade, diversidade corporal, comunicação e reconhecimento de situações de violência.
Quando essas informações não chegam de maneira confiável, o espaço tende a ser ocupado por mitos, preconceitos e expectativas irreais.
É nesse contexto que a chamada “recessão sexual” pode ser entendida de uma maneira menos simplista. A redução da atividade sexual entre parte dos jovens não significa necessariamente que uma geração tenha perdido o desejo. Em muitos casos, pode haver uma combinação de fatores emocionais, sociais e culturais dificultando a transformação do interesse em intimidade.
Januário resume a situação com uma provocação: “Isso ajuda a explicar por que muitos dos jovens, hoje, preferem uma boa noite de sono ao sexo.”
Menos julgamento, mais informação
Talvez o drama da Geração Z não seja a ausência de desejo, mas a dificuldade de lidar com ele em um ambiente marcado por ansiedade, excesso de estímulos e expectativas cada vez mais altas.
A conexão digital aproximou pessoas, mas não substituiu a necessidade de aprender a ouvir, conversar, estabelecer limites e lidar com a vulnerabilidade. E, quando falta educação sexual de qualidade, até questões básicas sobre desejo e relacionamento podem parecer mais complicadas do que deveriam.
No fim das contas, a questão não é simplesmente saber se os jovens estão fazendo menos sexo. É entender por que isso acontece e quais condições sociais, emocionais e educacionais estão por trás desse comportamento.
Porque, se até o sexo virou motivo de ansiedade, talvez esteja na hora de falar menos em “geração sem desejo” e mais em uma geração que precisa de informação, segurança e espaço para construir relações de forma saudável.
E, convenhamos: se o tutorial de 15 segundos da internet ainda não ensinou ninguém a conversar sobre desejo, limites e consentimento, talvez esteja na hora de admitir que algumas coisas continuam precisando de uma conversa de verdade.
*Com informações de Kátia Flávia (Jornal de Brasília)
