Cobrança por desempenho sexual gera sofrimento constante em 60% dos homens brasileiros, indica estudo

Foto: Freepik

Pressionados desde cedo a demonstrar virilidade e alto desempenho em várias áreas da vida — inclusive na sexual — muitos homens vivenciam a intimidade como um espaço de expectativa e cobrança. Uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) em parceria com a farmacêutica FQM, divulgada com exclusividade à GQ Brasil, mostra que 60% dos homens estão constantemente preocupados com sua performance na cama. Além disso, quase metade relata impacto emocional moderado ou grave diante de qualquer dificuldade sexual.

O estudo, realizado pelo Instituto Ideia com 3.213 pessoas de todas as regiões do país, indica que a busca pela “performance perfeita” abala a autoestima e alimenta um ciclo silencioso de ansiedade e frustração. Entre os entrevistados, 66% relatam impacto emocional significativo relacionado à dificuldade de controlar a ejaculação; 65% sofrem intensamente ao enfrentar queda de desejo; e 62% sentem angústia quando têm problemas para manter uma ereção.

Os dados também revelam que 17% dos homens iniciaram a vida sexual antes dos 14 anos; 40% entre 14 e 16; e 35% entre 17 e 20 anos. Metade teve a primeira relação com um namorado(a); 30% com um(a) amigo(a); e 15% com profissionais do sexo — mostrando que a primeira transa ainda é, muitas vezes, encarada como rito de passagem e validação social.

Nos últimos anos, porém, especialistas têm observado mudanças. “A pandemia provocou uma virada, com aumento da iniciação sexual virtual, baseada em autoestimulação, sem contato interpessoal”, explica a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do ProSex do Hospital das Clínicas da USP. “Isso pode atrasar o início dos relacionamentos presenciais. Quando o jovem tenta o contato real, muitas vezes falha. O consumo excessivo de pornografia também torna o encontro com o outro menos excitante, gerando angústia, ansiedade e desinteresse.”

A pressão para performar

Segundo o levantamento, 62% dos jovens consideram o sexo “muito importante” e 40% já tiveram relações sem vontade. “O homem foi educado para performar. Para ele, sexo é também validação pessoal. Quando algo sai do controle, sente que fracassou como homem”, afirma Carmita.

Essa lógica atravessa gerações e se tornou parte da identidade masculina, contribuindo para o adoecimento emocional. Para a psicóloga Margareth Reis, coordenadora da pós-graduação em Sexologia da FMABC, trata-se de um fenômeno estrutural:

“A busca por desempenho se intensificou na era das redes sociais. No sexo, essa preocupação toma o lugar do prazer. Muitos homens estão tão focados na ereção perfeita que deixam de perceber o toque, o cheiro e o próprio corpo.”

A ansiedade, por sua vez, pode prejudicar a ereção ou antecipar a ejaculação. Uma falha ocasional passa a ser interpretada como derrota permanente: “Se aconteceu hoje, vai acontecer sempre.” Esse ciclo transforma cada relação em um teste de desempenho, favorecendo o surgimento ou a piora das disfunções sexuais.

A antecipação do fracasso vira gatilho para ansiedade, baixa libido e outros distúrbios. Apesar disso, o assunto raramente é discutido. A dificuldade de admitir vulnerabilidade ainda impede muitos homens de procurar ajuda. A ejaculação precoce, por exemplo, atinge 25% a 30% da população masculina mundial. No estudo da SBU, 31,6% dos afetados apresentam o problema desde o início da vida sexual; 39,2% desenvolveram-no ao longo da vida.

Três em cada dez homens dizem que suas parceiras fingem não perceber a situação. A condição envolve três fatores: latência muito curta (geralmente até 2 minutos), falta de controle e sofrimento emocional. “Às vezes, o tempo entre penetração e ejaculação é quase nulo, o que gera extremo desconforto e leva à evitação sexual”, explica Carmita.

Existem dois tipos de ejaculação precoce: a primária, geralmente ligada a fatores genéticos e neuroquímicos; e a secundária, relacionada a questões emocionais, hormonais ou físicas. Para o psiquiatra Arnaldo Barbieri Filho, a cultura do desempenho é central:

“O homem é, em geral, muito falocêntrico. Ele associa autoestima e masculinidade à performance. Essa construção machista reforça inseguranças, como a ideia de que é preciso manter ereção o tempo todo e controlar a ejaculação.”

A importância do diálogo

O presidente da SBU, Luiz Otávio Torres, lembra que a ejaculação precoce pode acontecer em qualquer idade, sendo mais comum entre jovens. Já a disfunção erétil tende a aumentar com o envelhecimento, especialmente após os 40 anos, e está associada a doenças crônicas como diabetes e hipertensão.

Embora existam tratamentos eficazes, apenas 10% a 20% dos afetados buscam ajuda. Vergonha, tabu e falta de informação seguem como barreiras importantes. “O ideal é que o tema seja abordado em todas as consultas. Mesmo que o paciente não fale, o profissional deve abrir espaço para isso”, reforça Carmita.

No relacionamento, o diálogo também é essencial. Segundo o estudo, metade dos homens que usam medicamentos para prolongar o tempo ejaculatório o fazem por incentivo do(a) parceiro(a); 10% tomam o remédio sem avisar.

“Nenhum medicamento deve ser usado sem orientação médica”, alerta Torres. “A conversa aproxima, dá segurança e reduz a ansiedade. Ignorar o problema só aumenta o sofrimento.”

Entre as abordagens terapêuticas, destacam-se a fisioterapia do assoalho pélvico — que melhora o controle ejaculatório — e a terapia cognitivo-comportamental, eficaz para reduzir a ansiedade de performance.

No fim, a pesquisa da SBU mostra que o sofrimento masculino é real e comum, tornando a intimidade um espaço de tensão e culpa. Reconhecer o problema, conversar e buscar tratamento são passos fundamentais para restaurar o sexo como fonte de prazer, conexão e autoestima.

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