Eles começaram em uma situationship, evoluíram para um namoro não monogâmico no modelo DADT e, hoje, vivem como um casal aberto. Dante Olivier, homem trans, e Vitória Gouveia, mulher cisgênero, ambos de 29 anos, são a prova viva de que, como canta Milton Nascimento, “qualquer maneira de amor vale amar”. Juntos há quatro anos, já passaram por diferentes formas de relacionamento entre as muitas nomenclaturas que surgiram para descrever os novos arranjos afetivos contemporâneos. Ambos bissexuais e morando juntos, optaram por manter uma relação livre, na qual cada um pode se envolver com outras pessoas.
— Nossa relação é uma construção. Prezamos pela comunicação, e, por meio dela, tudo se acerta. Não acreditamos em papéis de gênero fixos. Sou um homem trans, conectado ao meu lado feminino, e minha mulher adora. Ela, por sua vez, tem um jeito mais “amadeirado”, e acho isso incrível. Temos uma compreensão real um do outro, um amor forte que está acima de qualquer regra — afirma Dante.
A psicanalista e escritora Regina Navarro Lins, autora de 14 livros sobre relações amorosas, incluindo Novas formas de amar, observa que cada vez mais as pessoas buscam modelos afetivos que façam sentido para suas vidas, sem seguir padrões impostos.
— Vivemos sob o mito do amor romântico, que propaga ideias equivocadas, como a de que quem ama não pode se interessar por mais ninguém. Mas esse ideal está perdendo força. Hoje, os desejos individuais ganham espaço, e isso abre caminho para formas de amar que não têm a exclusividade como base — explica.
Nesse universo diverso, surgem vários termos que ajudam a nomear as diferentes maneiras de se relacionar. Conheça alguns deles:
Agamia
Não buscar relações românticas formais
Para a jornalista e palestrante Maira Reis, 41 anos, a agamia é mais que um tipo de relação: é um estilo de vida. Representa quem não deseja vínculos formais, como o casamento. Isso não significa incapacidade de amar — apenas a escolha por não entrar em estruturas tradicionais. Segundo ela, a agamia também pode ser temporária, como no período após o fim de um relacionamento.
Casamento lavanda
União entre pessoas com orientações sexuais diferentes
O que antes seria visto como fachada, hoje pode ser um arranjo autêntico. É o caso do americano Jacob Hoff, 32 anos, gay, e Samantha Wynn Greenstone, 38, hétero, que se apaixonaram, casaram-se e aguardam o primeiro filho. Nas redes sociais, onde somam mais de 500 mil seguidores, compartilham o cotidiano e mostram que amizade e afeto sustentam sua família.
Conversante
Relacionamentos exclusivamente virtuais
Surge quando o vínculo nasce e se mantém apenas online — troca de mensagens, curtidas, conversas e presença digital. A psicóloga Amanda Morais alerta para a importância de não supervalorizar essas interações, lembrando que expectativas irreais podem gerar frustrações.
DADT (Don’t Ask, Don’t Tell)
O que acontece fora da relação não se discute
Nesse arranjo, parceiros aceitam que o outro tenha envolvimentos externos, mas preferem não saber detalhes. Dentro de casa, a relação funciona de modo semelhante à monogamia; fora dela, cada um tem liberdade, desde que não compartilhe a experiência com o parceiro.
LAT (Living Apart Together)
Casados que vivem em casas separadas
A empresária Manuela Bolsonaro Ferreira Lima Miziara, 35 anos, e o marido, Guilherme Muniz Miziara, 46, adotaram esse modelo há oito anos. Moram a dois quilômetros de distância e passam a semana separados, encontrando-se nos fins de semana. Para eles, o arranjo diminui conflitos e preserva a individualidade.
Não monogamia
Relações afetivas com mais de um parceiro
A agente de viagens Fidalma Chahine, 36 anos, encontrou liberdade nesse modelo, no qual vive cerca de cinco relações diferentes. Para ela, o amor não se divide — se expande. A não monogamia, explica, oferece espaço para conexões profundas sem exigir exclusividade.
Neo monogamia
Casais monogâmicos com regras flexíveis
É uma proposta intermediária: o casal vive majoritariamente de forma monogâmica, mas estabelece ocasiões específicas em que relações externas são permitidas — como flertes em viagens, interações com celebridades ou romances breves em determinadas situações.
Poliamor
Relacionamentos com mais de duas pessoas
A influenciadora Priscila Mira, 41 anos, que vive um trisal, explica que todo poliamorista é não monogâmico, mas nem toda pessoa não monogâmica vive o poliamor. Para ela, o termo amplia a ideia de amar mais de uma pessoa simultaneamente, criando novas possibilidades de vínculo.
Situationship
Relação sem compromisso definido
A assistente jurídica Morgana Maisner, 23 anos, viveu uma situationship por sete meses, até que uma conversa encerrou a relação. Segundo ela, o modelo costuma ser marcado por sentimentos desequilibrados — quando um dos envolvidos espera mais que o outro.
Throning
Relacionamentos baseados em status social
Para algumas pessoas, a posição social ou financeira do parceiro tem peso decisivo. A estudante de Direito Emily Höpner, 21 anos, assumiu que a estabilidade econômica do namorado, Júnior, 29, influenciou sua decisão de namorá-lo. Hoje moram juntos e, segundo ela, vivem exatamente o tipo de vida que ela desejava.
