Enquanto escrevia “Isabel do vôlei da vida: a onda mais alta de Ipanema”, livro sobre a atleta carioca morta repentinamente em 2022, Pedro Bial atravessava um luto pessoal profundo: a morte de sua mãe, a psicanalista Susanne Bial. Em conversa com a repórter Maria Fortuna no videocast “Conversa vai, conversa vem”, do GLOBO, o jornalista revelou como a despedida da mãe se entrelaçou com a trajetória que reconta sobre Isabel.
Segundo Bial, buscar a história da jogadora foi, sem perceber de início, um caminho para revisitar a própria vida.
“Logo vi que estava contando muito da minha história. Quando descrevo aquela Ipanema, as influências que ela sofreu, é a minha vida. O raciocínio muitas vezes nos trai — você conceitua, dá nomes, mas não diz o que está sentindo. Como repórter, sempre escrevi com o corpo todo. E, nesse livro, não precisei me conformar a nada; pude me entregar a um discurso totalmente emotivo”, afirmou.
A emoção fluiu também por conta do momento que vivia. A morte de Isabel, diz ele, “será para sempre recente”, mas coincidia com o processo de despedida de sua mãe, que morreu em julho aos 101 anos — completou aniversário no dia 3 e faleceu no dia seguinte.
Susanne já expressava o desejo de partir, e mãe e filho conversavam sobre isso abertamente. “Buscamos maneiras de abreviar. O Brasil tem uma lei defasada. O Uruguai já deu um passo, como sempre à frente da América Latina”, comentou.
Quando questionado se a mãe pediu sua ajuda para morrer, Bial foi direto:
“Pediu. Ela não tinha mais nenhum prazer. Amava ler e não conseguia. A vida dela eram as indignidades da decrepitude. Pensamos em um suicídio assistido na Suíça, mas não aconteceu. Fomos para os paliativos, que permitem uma morte digna.”
Durante os cuidados, Susanne teve uma pneumonia. A família decidiu não intervir com antibióticos. “Se fosse a pneumonia a levá-la, deixariam. Mas ela melhorou. Eu dizia: ‘Você só batendo a tiros’. Isso é outro livro…”, brincou, emocionado.
Refletindo sobre o tema, Bial diz ter chegado à clareza de que todos, diante dos recursos da medicina moderna, inevitavelmente enfrentarão essa questão: como queremos morrer?
“Quero viver muito tempo, mas como? Chega uma hora em que é indigno ser mantido vivo sem ter prazer nenhum. E claro que, mesmo desejando ir embora, dá um medo danado. Talvez não seja o medo da morte, mas o medo de morrer — porque morrer ainda é aqui”, concluiu.
